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E NÓS, PARA ONDE VAMOS?

  Haydeé Silva*

Uma crônica sobre o mais recente escândalo  do Brasil, a prisão dos mega-super-hiper empresários na Operação Lavajato, está nos meus planos  há algumas semanas, mas com tanta coisa prá fazer, acabei adiando, adiando, e nem sei mais se vale a pena falar sobre assunto tão vergonhoso. Tem também os livros infanto juvenis escritos pela amiga Ezilma Teixeira, que merecem um supér comentário, de tão bons que são, mas que, da mesma forma, ainda não tive tempo para acabar de ler e sentar para escrever. Também, quem manda achar que pode dar conta de tantas tarefas ao mesmo tempo?
Mas eis que hoje, numa terça-feira que começou tranquila, um problema surge e, depois de aparentemente resolvido, não me resta outra alternativa senão escrever sobre ele, para ver se a raiva passa, se o assombro e a preocupação passam e eu consigo enfim fazer o que sempre faço: entregar para Deus.
Dizem que a gente só tem a verdadeira noção do tamanho de um problema quando ele bate à nossa porta, e sou obrigada a concordar. Nos telejornais "de fora", além fronteiras de Três Rios, é normal duas, até três matérias por dia sobre alunos desacatando professores, tumulto em sala de aula etc. E eu às vezes assisto, com preocupação, é claro, mas é aquela coisa distante, de imaginar, mas não viver, de achar que aluno que "peita" professor é aluno de cidade grande, das São Paulo e Cidade Ademar da vida.
Não é não, gente. Aqui na nossa "roça" também tem isso, e sentir na pele dói, preocupa e enfurece. Enfurece ao ponto de quase me fazer esquecer que o autor do desacato é um "baixinho" de um metro e pouco de altura, da idade talvez da minha filha, mas com a petulância e agressividade de um marmanjo.  Pobres professores, principalmente os da rede pública! O que devem aturar de desaforos e maus tratos enquanto tentam ensinar algo de bom às suas "crianças"...O salário que recebem no final do mês talvez não dê para pagar um terapeuta para ajudá-los  a lidar com tantos problemas!   
Levei um dia inteiro para digerir as malcriações e me livrar da raiva. Explodi no corredor da escola porque um "baixinho" de um metro e pouco de altura, ao ser idagado por mim sobre o motivo que o levara a dar uma "rasteira" na minha filha, fazendo-a cair,  deu de ombros, disse que foi  uma "brincadeira" e, aos gritos, afirmou que faria de novo.
Algumas jujubas e meio pão velho depois (fico ansiosa e como o que vejo pela frente, lá se vai a reeducação alimentar!) relembro a cara do moleque, da professora pedindo a ele que me respeitasse e do  espanto das crianças ao redor. Quantas, ali, já terão feito a mesma coisa? Quantos, entre as centenas de alunos daquela escola, já tiveram o nome escrito no "livro de ocorrências" e levaram uma suspensão de um dia?
O "baixinho" de um metro e pouco entrou para o livro de ocorrências e talvez não seja a primeira vez. Sua mãe vai ser chamada para conversar com a diretora, mas de antemão já me avisaram que ela nunca aparece na escola. E o moleque, antes de ser liberado, olha para a professora e pergunta apenas: "quantos dias?". Quer dizer, não está nem aí para o fato de ser afastado das aulas, quer mais é ficar em casa, ou pela rua, já que, ao que tudo indica, passa boa parte do tempo  por sua própria conta.  Joga a mochila nas costas, vira o bonezinho ao contrário e sai cantando rua afora. Cantando!
Deu trabalho explicar ao pai da minha filha que, ao contrário do que acontecia no "nosso tempo", o menino não pode ser expulso da escola, nem ficar de castigo depois da aula, nem ter que escrever cem vezes a frase "Não devo maltratar os coleguinhas". Punições como estas "traumatizam", ferem os "direitos" fixados pelo tal do ECA (eca!) - Estatuto da Criança e do Adolescente.
O título desta crônica foi tirado de uma novela antiga, da Tv Rio, se não me engano, na década de 70. Naquele tempo, alunos respeitavam professores,  qualquer pessoa mais velha  era tratada com deferência pelas crianças e nenhum pai ousava ir à escola para discutir com a diretora. O colégio era um recinto quase tão sagrado quanto a igreja. A gente não chamava as professora de "tia", mas em compensação as respeitávamos como se nossas segundas mães fossem. Mesmo assim, o tema da novela era a preocupação com o futuro do mundo, frente ao comportamento dos jovens, que começavam a usar m cabelos compridos, roupas desbotadas e falavam de paz e amor.
São quase meia noite, a terça-feira que seria tranquila está chegando ao fim e está dando trabalho também convencer a mim mesma a relaxar, deixar a raiva de lado e parar de pensar no tipo de adulto que vai governar o mundo daqui a algumas décadas. Felizmente, até lá eu não estarei mais aqui, e, se estiver, vou estar tão senil, mas tão senil, que nem vou me preocupar se o prefeito presta  ou não, se o ministro matou, se o presidente fez ou deixou de fazer.

*Jornalista