COTIDIANO | TR Revista

COTIDIANO



 

DEZ, NOTA DEZ!

 

  Haydeé Silva*

DENIZZE sobe  a ladeira devagar. É um trecho pequeno, normalmente ela gasta poucos minutos até chegar em casa. Mas nesta noite de domingo é diferente. O caminho ficou mais longo porque além da enorme bolsa, que sempre a acompanha, a moça carrega um peso extra: a frustração.

Foram semanas de preparativos. Aulas de alongamento, na academia do bairro. Horas extras no supermercado onde é empacotadora, para pagar tratamentos no salão de cabeleireiro. Para manter o peso, dispensara o ônibus na ida para o trabalho. Eram cinquenta minutos de caminhada, ela chegava exausta e suada, tomava uma chuveirada antes de vestir o uniforme. Mas valiam o cansaço, o aperto financeiro e tudo o mais, sacrifícios por uma boa causa.

A escola de samba anunciou o concurso para escolha da rainha da bateria, e ela fora uma das primeiras a se inscrever. Como já sabia a opinião dos pais sobre a “mania de querer ser artista”, não contou nada à família.  Para manter segredo, ensaiava na casa de uma amiga, no centro da cidade, e tentava marcar todas as atividades para os horários de almoço. Economizara o máximo que pudera para mandar fazer a fantasia mais bonita possível, para o dia da apresentação.  O minúsculo biquíni dourado, com resplendor de plumas vermelhas, custara mais do que o salário de um mês.  A sandalhona, salto quinze, feita sob medida, seria paga em quatro vezes.

 Como tinha medo de perder o emprego, aceitou a escala para trabalhar naquele domingo e passou o tempo controlando o nervosismo. Os ponteiros do relógio pareciam se arrastar enquanto ela empacotava arroz e feijão, separava nas sacolas plásticas os perecíveis e sorria quando um cliente mais educado agradecia e dizia ‘bom trabalho’.

Finalmente deu uma da tarde e lá se foi a empacotadora, esbaforida, para o ponto do ônibus. Na enorme bolsa pendurada no ombro ia o biquíni dourado. A amiga, que morava perto da quadra, ficara de pegar o adereço da cabeça na casa do figurinista. 

A quadra estava repleta. Um mundo de gente tomava conta dos camarotes e das mesas colocadas ao lado da passarela onde ia acontecer o desfile. O camarim ficava ao lado do palco, e era pequeno para tanto povo.  Candidatas, maquiadores, carnavalescos, falavam todos ao mesmo tempo, numa torre de babel cheia de brilhos e plumas para todos os lados. A amiga de Denizze já tinha chegado, e a ajudou se ‘montar’ para a apresentação. A sorte é que seu cabelo era jeitoso, bastavam água e um pouco de creme para modelar os cachos. A maquiagem realçou os traços do rosto bonito e, apesar do pouco tempo e da improvisação, o resultado foi bom. A empacotadora ficou irreconhecível, não lembrava em nada a moça que chegara apressada, de cabelo preso, jeans e tênis. 

Confiante, sabendo que estava muito bonita, entrou sambando na passarela e arrancou aplausos. A sandália alta não impediu que ela rebolasse pra valer, e a roupa minúscula permitia que mostrasse o corpo bem feito, pernas grossas e torneadas, cintura fina. Num último “bate cabelo”, curvou-se diante dos jurados, atirou beijinhos para os ritmistas. Desceu os três degraus acreditando que estava no páreo, na luta pelo título.

Na volta ao minúsculo camarim, engoliu um copo d’água, quase engasgando de tanta aflição. A amiga e camareira ajudou a secar o suor do rosto. A maquiagem continuava impecável. Valera a pena pagar uma fortuna pelos produtos à prova d’água, três vezes no cartão, sem juros; os minutos de espera, angustiantes, foram compartilhados com as outras candidatas. Uma delas, Verônica, se vangloriava dos quinhentos mililitros de silicone, enquanto outra, Ingrid Christiane, chorava com medo do namorado traficante, presente na plateia. Ele bancara a roupa, cabelo e tudo o mais, e a moça, uma loirinha magrinha, de cabelo mega hair, achava que não tinha feito boa apresentação.

Denizze, por sua vez, continuava acreditando na vitória. Se saísse da quadra, naquele domingo, com a faixa de Rainha da Bateria, sabia que muita coisa iria mudar. Dos desfiles informais, usando roupas de confecções de fundo de quintal, partiria para voos mais altos. Quem sabe uma capa de revista? Pelada não; morreria de vergonha se tivesse que tirar a roupa na frente de uma câmera. Mas posar usando um biquíni bonito, ou uma roupa de grife, isso sim, ela faria com prazer. Depois das fotos poderiam surgir convites para desfiles, campanhas de publicidade...enfim, tudo dependia do resultado do concurso.

 Ela tinha quase certeza de que sairia da quadra com a faixa de Madrinha, e no carnaval ajudaria a escola a ser campeã. Já se imaginava, no dia da apuração ouvindo do locutor oficial: “Mocidade Unida, quesito bateria, dez, nota dez!”   

Em meia hora, o resultado. Denizze e mais duas candidatas, a loirinha do traficante e Marluce, uma negra linda,  de quase dois metros de altura, são chamadas ao palco. São as finalistas do concurso. Deixando as rivalidades de lado, o trio entra de mãos dadas, para receber o veredicto dos jurados.  A empacotadora, ladeada pelas duas rivais, sente o coração batendo na garganta e suas pernas tremem. Tenta se controlar ao perceber que as outras duas estão na mesma situação, as mãos escorregadias e pegajosas de suor.

‘Deu branco’ na hora do anúncio oficial.  Denizze custa a perceber que não tirou todas as notas dez que imaginava, e assiste, meio abobada, a comemoração de Marluce, que pula, ri e chora como criança.  Para ela, o segundo lugar, com a loirinha em terceiro. Com o canto dos olhos, vê o traficante virando de uma só vez um copo de pinga, enquanto a namorada agradece comovida aos jurados. Quando chega a sua vez, balbucia algumas palavras, agradece à amiga e atende à plateia, que pede ao trio finalista para sambar junto. No mais, foi como o encerramento de todas as festas; ela teve que ficar até a apresentação do samba enredo, bebeu cerveja, fez as honras da casa como Primeira Princesa da Bateria. Tirou fotos para o site da escola e finalmente pode ir embora.

Agora, às nove da noite, Denizze sobe a ladeira devagar, carregando a bolsa pesada e tentando entender a razão de mais um fracasso. Mais uma vez em segundo lugar, daqui a pouco vai ser chamada de Miss Supermercado. Desde criança sonhando com os palcos, roupas bonitas, vida de artista, faz a vontade dos pais e estuda, trabalha, mas não desiste. Entra em tudo quanto é concurso, desfila de graça nas festas da igreja, faz de um tudo para ficar a cada dia mais bonita. O ‘z’ extra, em seu nome, fora conselho de uma numeróloga, para atrair o sucesso.

Talvez sua hora ainda não tenha chegado... Tenta se consolar enquanto entra descalça na varanda. Os pais dormem cedo e Diego, o irmão, deve estar no baile funk. Na ponta dos pés, tranca a porta e vai pro quarto. Sabe que é um ‘crime’ contra a beleza dormir sem retirar a maquiagem, mas esta noite isso não tem a menor importância. Está cansada, os pés doem, vai dar um trabalho danado tirar todo o liter. espalhado pelo corpo...As pálpebras pesam, o sono chega, Marluce deve estar em algum pagode, sambando com a faixa de Rainha da Bateria...

 

 * Haydeé Silva é jornalista