COTIDIANO/ O DIA EM QUE A COBRA GANHOU ASAS | TR Revista

COTIDIANO/ O DIA EM QUE A COBRA GANHOU ASAS



Haydeé Silva*

 

Há certas palavras na língua portuguesa que não gosto de usar. Desgraça, inferno, peste, são algumas delas. Reflexos da educação dada por minha mãe, senhora cheia de superstições, que achava que certas  palavras  atraiam coisas ruins. Ela, por exemplo, nunca pronunciou a palavra “câncer”, dizia sempre “aquela doença”. Já essa eu falo com tranquilidade, câncer, ou Ca, como dizem os médicos. Mas  uma das  que  não costumo falar é NOJO. Acho muito forte alguém dizer que está com NOJO de alguma coisa, ou de alguém.

Mas depois de ontem, memorável dia 16 de agosto, outra palavra não me ocorre. Estou com NOJO de certas pessoas, de certas coisas que acontecem neste país. Nojo de ouvir, nos telejornais, gravações de conversas entre políticos poderosos se referindo a investigações policiais em tom de gozação, de ver esses mesmos telejornais gastando a maior parte do tempo noticiando escândalos um atrás do outro. Alguém há de dizer que é exagero, que estão cansando o público falando de um assunto só, mas fazer o quê, se parece que uma nuvem negra se instalou sobre o nosso céu sempre tão azul, e ultimamente só o que se vê é delação premiada, é gente sendo presa, é advogado defendendo o que aparentemente não tem defesa?

Enjoei, enojei. Cansei de tanta bandalheira, e se continuo assistindo tevê é por dever de ofício, é para ter o que comentar e sobre o que escrever. Quando a gente pensa que acabou, que se fechou o cerco sobre quem é culpado do desvio de rios de dinheiro, novas delações acontecem, os que não levaram a sua parte, ou foram “esquecidos” na cadeia, se revoltam, abrem o bico, contam o que sabem. E o saco se enche cada vez mais com a mesma farinha. Ao que tudo indica, a novela está longe de acabar, o mar de lama promete ser muito maior do que aquele que destruiu o distrito da cidade de Mariana. A diferença é que lá em Minas morreu gente., famílias, perderam suas casas e serão  (será que serão?) indenizadas por isso.    

Mas,  e quanto ao mar de lama de Brasília? Os ladrões continuarão na cadeia, ou daqui a pouco ficarão “doentinhos”, e serão beneficiados com a piada da prisão domiciliar? Os engravatados da Petrobrás, que tinham salários milionários e mesmo assim roubaram milhões e milhões de dólares, terão que devolver tudo, ou será que já não passaram a maior parte para os laranjas de seus enormes pomares?  

São quase 10 horas da noite deste 16 de março. De vez em quando as emissoras de tevê interrompem a programação e repórteres falam ao vivo sobre as manifestações que acontecem em todo o país. O povo foi prá rua protestar contra a Dona Dilma, que nomeou o Seu Lula Ministro para livrá-lo do Sérgio Moro. Indecência, Imoralidade, vergonha.  A quem eles pensam que enganam? Há duas semanas atrás, Seu Lula foi obrigado a depor, não disse coisa com coisa, fez o que sabe fazer de melhor: discursou chamando para si as atenções, aquele teatro de líder operário que chegou ao Planalto enganando tanta gente. Inclusive eu, que votei nele desde sempre e achava linda a ideologia do PT. Achava lindo o líder metalúrgico discursar, prometendo mudar o país, colocando  comida na mesa dos pobres e dando trabalho aos desempregados.  Claro, um homem sem estudo, que parou a Volkswagen com um simples discurso, que perdeu um dos dedos trabalhando e que comia de marmita, podia salvar o meu país. Eu acreditei e votei.  Depois vi esse homem se transformar em Presidente, em palestrante mais caro que o Bill Clinton, figura tão querida que os amigos emprestam e reformam sítios e apartamentos para ele e sua família. Um homem que hoje debocha das autoridades, se intitula o mais honesto dos mortais, e que acaba de ser reconduzido ao PODER.

O que nos espera? O que acontecerá nos próximos dias? Tenho nojo de tudo o que vem acontecendo e medo do que pode vir a acontecer. Nas redes sociais se multiplicam as bandeiras nacionais com as faixas de luto, movimentos pedem a todos que vistam roupa preta manhã, quinta-feira. Eu até já separei minha blusa preta, vou vestir, mas não estou de luto. Estou com NOJO. Mas não é nojo de quando morre gente não, é nojo mesmo,  asco, aquela sensação ruim que a gente tem quando não consegue nem olhar prá cara da pessoa. No discurso que fez no dia da condução coercitiva, Seu Lula se comparou a uma jararaca, disse que miraram na cabeça e acertaram no rabo da jararaca. Pois a cobra, tal qual as lagartixas, fez o rabo crescer de novo e pior, ganhou asas, vai voar toda orgulhosa sobre as nossas cabeças e ameaça pousar um dia, de novo, na rampa do Palácio do Planalto, de faixa presidencial e tudo.  Que minha mãe me perdoe, mas vou precisar usar mais uma daquelas palavras: Deus nos livre desta DESGRAÇA.      

*Jornalista