EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/ INÊZ É MORTA | TR Revista

EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/ INÊZ É MORTA



Já é quase uma espécie de ritual da lembrança que,  à proximidade do aniversário do município de Três Rios, tal um bosquejo da nostalgia, eu venha rabiscar uma página sobre algum momento digno de um registro da historiografia trirriense.
A data magna de 14 de dezembro já foi pródiga para que eu discorresse dos meandros da sua autonomia político –administrativa, do coroamento dos nossos vultos autonomistas, das conquistas e muitos avanços da nossa saga de 78 anos.
A partir de hoje – até o nosso cassado feriado de 14 de dezembro - vez por outra, rabiscarei um momento da nossa História, mas abdicarei de sua proto-história de barões, viscondes, condessas e quejandos.
Escreverei sobre sua História recente, pinçando momentos alegres, mas outros tristes. Episódios de humor, sem esquecer alguns momentos de dor. Diapasão comum aos povos.
Bem me lembro, diletos leitores, era junho de 1997 e o prefeito era o Dr. Raleigh Ramalho. Nossa política cultural exultava! Após muita argumentação com o prefeito o Conselho Municipal de Cultura conseguira a assinatura do decreto de 26 de junho de 1997 que dava tombamento de bens culturais e naturais do município.
Todavia, tal satisfação começou a sentir certo arrefecimento quando notícias davam conta de que era de intenção - um ano depois - da então Sua Excelência municipal demolir a nossa relíquia tombada representa pela estação de cargas, da Avenida Condessa do Rio Novo.
Naquela época, mandava e desmandava em Três Rios o então deputado federal Roberto Jefferson, que soprou tamanha descompostura histórica aos dóceis e obedientes ouvidos do prefeito.
O Conselho de Cultura reagiu, contudo, estupefato, constatou que o prédio da estação, num passe de mágica, não mais fazia parte do documento do rol dos bens tombados. Sorrateiros eclipses das letras legais...
O colegiado de cultura lutou: denunciou a desfaçatez na imprensa escrita e falada da época, pediu auxílio, mas ela se calou. Foi aos clubes de serviço ,e a mesma indiferença ,fez campanha junto ao povo. E paralisia social !
Tivemos muitas audiências insistentes e aflitas com o prefeito provando da desnecessidade da demolição do prédio histórico para a passagem de mais uma pista da Av. Condessa do Rio Novo.
Na fatídica manhã do dia 26 de setembro de 1998,  o prefeito, seu staff e o então poderoso deputado federal, tal uma reunião de iconoclastas gargalhavam ante tratores, retro escavadeiras, já ligadas para jogar ao chão a nossa História.
Num ímpeto,  eu e o saudoso Dr. Domingos Aguiar – valente companheiro de lutas pró cultura de Três Rios – num destemido ato de resistência, nos postamos frente a todo aquele maquinário que já fumegava destruidor. “- Saí, não sai!” era a nervosa dialética das forças contrárias.
E não saíamos, reagimos com o nosso paredão de quatro braços fortalecidos pela indignação ante o ignóbil passo administrativo.
Ao frigir dos ovos a polícia foi chamada pelos algozes anti-cultura e Dr. Domingos e eu recebemos voz de prisão, sob a acusação de perturbação da ordem pública.
Estávamos muito emocionados e meio descontrolados. Chorávamos de revolta. A turma do “deixa disso” chegou e intercedeu.
Hoje, as mesmas forças comunitárias que negaram suas vozes para a catástrofe sofrida pelo nosso patrimônio histórico, paradoxalmente, são as mesmas que cobram tal desastre aos da comunidade cultural da época. Inês é morta.

PS. Por dezoito anos optei em não divulgar as fotos que posto daqueles momentos de mágoa, de muita aflição. Com censura divulgo algumas. Uma consternação de subepígrafe.