EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/N SRA APARECIDA E MEU PAI | TR Revista

EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/N SRA APARECIDA E MEU PAI




Como no dia 12 de outubro o calendário católico celebra o dia de Nossa Senhora Aparecida - inclusive concedendo -lhe o alto status religioso de padroeira do Brasil, pelas oportunidades e coincidências - me permiti contar uma história particular de minha família, que veio unir o sagrado e o profano, bem traduzido: a presença da santa brasileira como de grande devoção da minha grei , após um trajeto de mais de cinquenta anos de ateísmo de meu pai, João Batista Teixeira, independente de ter nascido em uma grande família de profundos votos católicos, inclusive com vários filhos religiosos, padres e freiras, dedicados à Igreja Católica Apostólica Romana.
Ao contrário do marido, minha mãe professava uma grande fé católica, mas papai era ateu.
E daqueles ateus orgulhosos dos seus ceticismos, convictos da excelência do materialismo, e a vida assim lhe bastava.
Embora totalmente descrente de transcendências espirituais nunca interferiu na formação religiosa dos filhos, matéria de exclusiva responsabilidade e competência de mamãe: todos batizados, com primeira eucaristia, com singelas festinhas familiares,  consagrados, crismados, educados em colégios religiosos, e casados à benção da santa madre igreja católica. Enfim, fiéis e pios seguidores das liturgias ditadas e consagradas.
Às vezes, mesmo muito pequenininha, eu me pegava não acreditando muito no ateísmo de meu pai, pelas suas atitudes mais básicas frente a vida: marido exemplar, pai amoroso, responsável, repleto de lições de fundo moral; amigo dedicado dos amigos; patrão caridoso,  reverente dos direitos fundamentais da sua mão de obra e o muito respeito que devotava aos seus operários.
Isso tudo, e muito mais, fazia que eu visse meu pai como um maravilhoso cristão! Totalmente fiel à verdade ensinada no “ amai-vos uns aos outros”.
Para mim ele era um grande cristão! E estava acabado! Ponto final!
Um dia – um belo dia! – sabe-se lá a razão (pois nunca deram muita confiança em justificativas aos meus tenros 8 aninhos) passei a ver em papai um homem contrito, acompanhando-nos às missas de domingo.
Alguma coisa muito grande e misteriosa estava por trás daquela mudança .Escutava umas conversas em meio-tom dos parentes adultos,  que eu não entendia muito bem, mas que resguardavam uma certa alegria, com sorrisos de uma emoção bem comportada e contida.
Mas, de uma coisa eu já tinha certeza: a presença de Nossa Senhora Aparecida era indisfarçável naquela mudança de meu pai, muito mais depois que escutei os adultos falando de “milagre de conversão de meu pai “.
Numa manhã inesquecível,  ele à frente, mamãe, eu, irmãos, alguns parentes e amigos fomos até a nossa extinta estação ferroviária para receber uma encomenda que chegava de São Paulo.
Era um grande caixão retangular de madeira e, aberto para conferência e integridade da encomenda, eu, curiosa, espiei de soslaio, para dentro do caixão e vi que, no meio de muita palha, guardava a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que tinha tamanho muito maior que o meu.
Voltamos todos para casa onde nos esperavam na calçada muitos vizinhos e conhecidos e mais o padre Francisco Foit, pároco da Paróquia de São Sebastião de Entre-Rios.
Respeitosa e cuidadosamente,  a imagem foi retirada do caixão e meu pai e um tio entraram com ela em nossa casa, onde foi depositada em um pequeno e  improvisado altar florido,  já caprichosamente preparado para a chegada da santa, para uma rápida benção da imagem pelo padre pároco já no interior da nossa residência.
Depois, já na rua, a virgem foi colocada em um andor também florido e foi formada uma procissão de muitas pessoas em duas alas a caminho da Igreja Matriz de São Sebastião, bem próxima à nossa casa. Todos entoando cânticos religiosos com fervor.
Era o dia 12 de outubro de 1954.
Foi, então, realizada a entronização da virgem na igreja matriz ao som de cânticos religiosos: " mãezinha do céu, eu não sei rezar ..." ," com minha mãe estarei, na Santa Glória um dia, e junto à virgem Maria... " . E a imagem, ainda no andor, foi repousada na bela mesa de comunhão de mármore para onde, em fila, se dirigiam os fiéis para saudá-la em grande respeito e veneração cristãos.
Dias mais tarde,  foi erguida e colocada em um pedestal fixado na segunda coluna à esquerda .
Lembro-me que sempre às missas e outras celebrações eu, menina, me colocava na frente, em lateral à imagem, e orgulhosa estufava o peito da conversão de papai e da sua cálida doação para a nossa igreja matriz. Aquilo era o máximo para a minha ufania infantil !
Depois de ser reverenciada por muitos anos no pedestal da referida coluna, a imagem foi transferida para um nicho, à esquerda da entrada da igreja, em um bonito altarzinho florido, onde se encontra até hoje recebendo seus devotos fiéis.
Essa história da conversão e posterior oferecimento daquela representação santificada pelo meu pai é conhecida por muitos e já pelas três gerações da minha família e,  certamente, tempo de posição garantida, uma boa colocação, como mais uma página de fé, entre muitas tantas fazendo história na comunidade católica de Três Rios.