GENTE / CIDA GONZE | TR Revista

GENTE / CIDA GONZE



Marcado por comemorações em todo o mundo, o Dia Internacional da Mulher é, para algumas, momento de reflexão. Não apenas sobre o mercado de trabalho, o feminismo, as conquistas obtidas ao longo dos anos. Muitas mulheres neste dia refletem sobre perdas, sobre superação e formas encontradas para suportar dores imensas que carregarão pelo resto de suas vidas.

Cida Gonze, uma das Amigas do TR Revista, é uma dessas mulheres. Ao saber do interesse do site em contar sua história, fez questão de frisar que não se trata de um caso de  superação. Perdeu três filhos de forma trágica e sofre por isso até hoje. Toma remédios, nunca mais foi a mesma pessoa e diz que não tem mais sonhos. Mas segue “tocando a vida” por amor aos dois filhos que restaram.

Na pessoa da Cida, que apesar do sofrimento se dispôs a nos contar a sua história, homenageamos a todas as mulheres que sofrem a pior de todas as dores. À elas, o abraço solidário do TR Revista.

TR – VOCÊ DEMONSTRA TER MUITA FÉ EM DEUS. QUAL SUA RELIGIÃO?

CG – Minha  religião é Deus . Em tudo vejo e sinto a presença Dele. Até mesmo nos momentos mais terríveis, sei que Ele sempre me amparou. .Sem Ele, nada somos.

TR – O LUCAS, A FRANCIANE E A LUCIANA ERAM SEUS ÚNICOS FILHOS?

CG - Não,   tenho outros 2 filhos, que são a razão de minha luta para continuar minha caminhada .

 

TR  – PODE FALAR SOBRE AS CIRCUNSTANCIAS DA MORTE DO LUCAS?

CG – Foi um acidente, ou melhor, uma tragédia.  Nós morávamos em frente a Ilha de Capri. Naquele ano, 1997, o rio estava muito cheio. No dia 23 de fevereiro, um domingo, por volta das 17 horas, fazia muito calor. O Lucas brincava com os dois irmãos. Eu estava fazendo um suco para eles, mas de onde estava conseguia ver os três.  Dado momento o Lucas se aproximou de mim e me pediu um “beijo babado”, como ele dizia. Era na verdade um selinho. Me curvei e demos o nosso beijo babado. Foi o último Ele voltou para brincar. Como o rio estava muito cheio, ele chegou um pouco mais perto da cerca. A terra cedeu, ele caiu direto no rio. Não sei explicar, mas me joguei também, e meus outros filhos fizeram o mesmo. Ficamos nós quatro nos afogando.  Não sei nadar. Eu gritava desesperadamente por socorro. Não sei até hoje quem me resgatou. Os outros dois foram salvos por homens que ouviram os meus gritos e os salvaram. Muita coisa se apagou da minha mente. Só ficou a imensa e terrível dor que tomou conta de mim. O Lucas faria 4 anos no dia 27 daquele mês.

Neste ponto da entrevista, Cida fez uma pausa e relembrou a mudança no comportamento da filha Franciani, que passou a agir como criança depois da morte do irmão.

TR – DEPOIS DA MORTE DO LUCAS, QUANDO NOTOU O COMPORTAMENTO ESTRANHO DA FRANCIANI, VOCÊ PROCUROU AJUDA MÉDICA? E QUAL FOI O DIAGNÓSTICO?

CG – Sim, foram muitos médicos, várias internações. Nunca nenhum deles deu um diagnóstico especifico

TR –  ANTES DELE MORRER VOCÊS FORMAVAM UMA FAMÍLIA FELIZ?

CG – Sim, éramos uma família feliz.

TR – QUANTOS ANOS A FRANCIANI TINHA QUANDO PERDEU O IRMÃO? E ATÉ A MORTE DELE ELA ERA UMA PESSOA NORMAL?

CG – Estava com 19 anos, era uma pessoa normal.

TR – VOCÊ DISSE QUE JÁ ESTEVE FRENTE A FRENTE COM O ASSASSINO DA FRANCIANI. ACHA QUE ALGUM DIA PODERÁ PERDOA-LO?

CG – Não, depois que vi a maldade a frieza dele, não

TR – COMO A FRANCIANI FOI MORTA?

CG – Ela foi enforcada e muito judiada. Foi encontrada morta dentro de um latão de lixo, perto do Detran, na rodoviária nova, no dia 13 de setembro de 2004.

TR – E SUA OUTRA FILHA, A LUCIANA? O QUE HOUVE COM ELA?

CG -  Depois de toda essa dor, minha filha mais velha, a Luciana, adoeceu. Quando a levei ao médico   foi horrível, descobriram que ela era portadora de uma doença muito rara. O cérebro dela envelheceu. Ela estava com 31 anos, mas tinha um cérebro de alguém de mais de 90 anos. Portanto, poderia ter todas as doenças que uma pessoa com 90 teria. Não tinha cura,  nem remédio. Ela tinha ficava lúcida por algum tempo , e numa dessas ocasiões  ela soube da doença. Resumindo:  no dia exato em  que estava fazendo 5 anos da morte da Franciani,  no dia 13 de setembro de 2009, ela infelizmente tirou a própria vida. A doença manifestou logo depois da morte da irmã.

TR – DEPOIS DE PASSAR POR UM CHOQUE TÃO GRANDE, O QUE ESPERA DA VIDA, ATUALMENTE? TEM ALGUM PLANO, ALGUM SONHO?

CG – Bem,   da minha vida não espero  NADA. Meus sonhos se perderam. Hoje vivo os sonhos dos meus filhos. Não tenho planos. Na verdade, me esforço para me lembrar de como eu era, pois  a Cida de antes de tudo acontecer não existe mais. Apenas luto um dia após o outro pelos meus 2 filhos

 

TR – GOSTARIA  DE MANDAR UMA MENSAGEM PARA ALGUÉM?

CG – Sim, para todas as mães que perderam seus filhos. Que elas se aproximem mais e mais de Deus. O tempo não apaga tamanha dor. Nunca mais seremos as mesmas.Mas que elas  possam, como eu, agradecer a Deus pelo tempo que tivemos com nossos filhos  que não estão mais ao nosso lado. Que descubram,  como eu, que filhos são presentes que o Pai nos deu e confiou. Mas não são propriedades nossas. São Graças que Deus nos confiou. Que Deus abençoe a todas .