DOMINGO SEM JOÃO | TR Revista

DOMINGO SEM JOÃO



 

Ando fazendo umas coisas que sempre condenei nos outros, e descubro que a culpa é do tempo, ou melhor, da passagem dele. ando com alergia a  espelhos de elevador, entro de cabeça baixa nas caixas que nos levam andares acima, e noto que desconverso sobre datas de fatos ocorridos há muitos anos. Exemplo: outro dia conversava  com um amigo sobre  a jornalista Glória Maria, e me lembrei que a primeira reportagem dela ao vivo foi a queda do Elevado Paulo de Frontin. Naquele dia triste, um sábado, eu me preparava para ir à festa de aniversário de uma amiga. Pois bem, na hora de dizer quantos anos fazia a tal amiga, desconversei. Motivo: se dissesse, meu amigo ia acabar descobrindo quantos anos eu tinha na época, aí ia fazer contas...e descobrir que faz tempo que não tenho mais vinte anos. Coincidentemente, a Glória Maria também não revela a idade dela “nem a pau”, será que tô pegando as manias da “ídala”?

Faz tempo que, ao entrar nas lojas, sou recebida com um “Posso ajudar, senhora?” e confesso que no começo ficava danada da vida. Depois, resolvi ver o lado bom da coisa, e passei a achar a saudação muito chique. Hoje, chamo os auxiliares de viagem dos ônibus de “meninos”, eles me chamam de “senhora” e tudo bem, considero o supra sumo  da boa educação. Notaram o palavreado? Supra sumo, alguém ainda usa esse termo? Se algum jovem do tempo do internetês estiver lendo, vá ao dicionário de expressões.

Bem, voltando à história dos espelhos, já notaram como são cruéis aqueles dos provadores de roupa? Pelo menos para mim, sempre foram  um terror. Antes, era porque as roupas nunca serviam. Agora é por causa da cara mesmo. O tempo passa, gente! E a constatação mais dolorosa de que estamos envelhecendo  é quando começam a morrer as pessoas que a gente admira. Ídolos também  são mortais, essa é que é a  verdade. Numa manhã de sábado, faz anos, abri O Globo e descobri que Barry White tinha morrido. Como, morrido? E quem iria compor, dali prá frente, músicas inesquecíveis para eu cantarolar em “embromation”,  durante as caminhadas? Depois foram Jorge Amado...Tim Maia (nesse eu  gostaria de  bater, se ele ressuscitasse, porque praticamente cometeu suicídio)...Emílio Santiago...Paulo Goulart... Donna Summer, dois dos Bee Gees, um cara dos Temptations (Disco Inferno!), Jair Rodrigues... isso sem contar pai, mãe, os tios favoritos, um primo (lindo, na flor da idade, muito mais novo que eu, a cara do Barry, por sinal), amigos queridos (Cicemar Lapa, saudades) enfim, um festival de defuntos que recordo em dias de baixo astral, quando me sinto a prima do Matusalém, a próxima da lista, vou deixar filha pequena, ai meu Deus! Haja Citalopram!

E agora foi embora João Ubaldo. Como foi fazer  isso COMIGO? Logo eu, que esperava com ansiedade o menino do jornal, para me esparramar no sofá na manhã de domingo e me deliciar com as crônicas sempre inspiradas, mesmo quando o assunto era política e eu não gostava muito? Como vou ficar sabendo das fofocas dos velhos amigos no boteco do Leblon, e das peripécias durante a caminhada recomendada pelos médicos e que ele nunca conseguia terminar? Será que algum dia ele ultrapassou o capenguinha? E as moçoilas que encontrava pelo caminho, a quem irão parar agora, para perguntar sobre livros, viagens? Ah, as viagens do João! Na época das Copas do Mundo, ou em congressos e palestras na Alemanha, em Portugal, ele sempre tinha o que contar, da forma gostosa de sempre, fazendo a gente se sentir no local onde as coisas aconteciam.

Faz isso não, João! Não me deixe sem saber notícias da denodada Ilha de Itaparica, de Luiz Cuiúba e Kibe Frito, e Zecamunista e toda a galera do Bar de Espanha! Vai embora não, João, os passarinhos do jardim de sua  casa na ilha vão sentir sua falta, e o povo que esperava você chegar de manhãzinha para contar a história da sua vida não vai mais te encontrar na pracinha. Na época de Copa do Mundo, vão fazer falta as histórias sobre as superstições do seu pai, o velho coronel cheio de manias, lembra da história da descarga do banheiro, você quase acabou com a água da cidade até sair o gol do Brasil!

Não vai ter mais João Ubaldo nas manhãs de domingo. Mas ficam os romances, os contos, os especiais escritos para a televisão e que com certeza irão reprisar em sua homenagem. Fica também a estátua que o Prefeito do Rio disse que vai mandar colocar no Leblon, por onde você passeava todos os dias. Vou torcer para que não roubem seus óculos, como fazem volta e meia com o Drummond, e um dia vou querer conhece-la, tirar foto bem juntinho. O tempo passa prá todo  mundo, e prá você passou depressa, João. O jeito agora é usar a frase do Cuiúba, “pior seria se pior fosse”, e pior do que morrer tão cedo seria você não ter existido.

Essa história de passagem do tempo só é bonita na novela das 8. Os anos voam e todo mundo continua com a mesma cara, os mesmos ossos, os mesmos cabelos, enquanto aqui, na vida real de gente real, os espelhos dos elevadores e provadores nos mostram que a coisa não é bem assim. Paga-se um preço pelo passar dos anos, e quando morre gente que a gente gosta é que a gente (desculpem o excesso de gente) tem vontade de fazer de uma vez tudo o que adia há anos, antes de chegue a nossa vez. O tema “tempo” não se esgota aqui. Sinto que ainda tenho muito o que falar sobre isso.

Melhor enfrentar a verdade de uma vez: eu tinha quinze anos, quando desabou o Elevado Paulo de Frontin. Quando foi isso? Ora,  procurem no Google!