EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/ MATERNIDADE WALTER FRANCKLIN - VIDA, PAIXÃO E MORTE | TR Revista

EZILMA TEIXEIRA RELEMBRA/ MATERNIDADE WALTER FRANCKLIN - VIDA, PAIXÃO E MORTE



Pesarosas as notícias  dão conta do despejo judicial das Clínicas Walter Francklin. Não ouso adentrar no mérito das vozes litigantes por considerá-las diminutas, ante a grande tragédia que se avizinha, com grande parte do nosso povo mais carente ficando ao relento de assistência médica. Catarse que se agrava se pararmos de dourar a pílula da UPA e do precário atendimento do nosso outrora orgulhoso Hospital  de Clínicas Nossa Senhora da Conceição. Ao meio de tamanhos pesares,  fica também um lamento por esse imbróglio advindo das barras da justiça: um violento epílogo da História daquela casa de socorro médico, que se mistura com a própria História trirriense em aspectos plurais da sua vida: da assistência social, do brado emancipacionista, da doutrinação espiritual, dos primeiros traçados de Entre Rios município.

Muito jovem, recém chegado a Entre Rios, o jovem médico obstetra dr. Walter Gomes Francklin, fiel à doutrina kardecista, chegara à direção do Grupo Espírita Fé e Esperança e logo após recebeu pedido das irmãs de fé Rita Cerqueira e Helena Arneiro, ambas parteiras, para a cessão de um cômodo na instituição que dirigia para que pudessem melhor atender as parturientes totalmente desprovidas de bens materiais. Muitas moravam em locais distantes, insalubres, com parca alimentação,  e era muito grande a mortalidade de mães e recém nascidos por tais carências vitais às gestantes e bebês. Do pequeno cômodo mais dois foram cedidos e,  já no início dos anos da década de 1930, devido à demanda, ali foi criada a “Casa da Mãe Pobre”, embrião das clínicas que hoje sofrem tamanho revés.

A “Casa da Mãe Pobre” foi elevada, mais tarde, à “Maternidade de Entre  Rios”, e recebendo o nome de” Maternidade Walter Francklin” (foto), em 1953, após o falecimento e em homenagem ao grande obreiro daquela instituição. Nos idos dos anos 30, a comunidade kardecista abrigava grande parte da liderança da luta pró emancipação do distrito de Entre Rios. Tinha aqui grande superioridade política. Nesses tempos,  a comunidade católica ocupava-se em construir a sua nova igreja matriz; foi quando, em 1936, o bispo diocesano D. André Arcoverde ordenou ao vigário padre José Custódio Barroso que cessasse por uns tempos a construção da nova igreja matriz para iniciar a construção de um hospital católico (o hoje Hospital de Clínicas  Nossa Senhora da Conceição). O que movia o bispo Arcoverde era a preocupação do avanço dos kardecistas na assistência social, deixando em desvantagem a igreja católica de Três Rios na oferta de apenas assistência espiritual ao seu rebanho. Por assim dizer,  a antiga “Maternidade de Entre Rios” foi a gênese do Hospital Nossa Senhora da Conceição.

Passado o tempo a Maternidade Walter Francklin – dona de uma História tão bonita de lutas, dedicação com o próximo e altruísmos - foi arrendada a particulares, mudou seu nome e sua razão social,  e chega hoje à infortunada situação que joga aos porões escuros do pesar toda a comunidade trirriense.