TRIRRIENSES PELO MUNDO | TR Revista

TRIRRIENSES PELO MUNDO



TRIRRIENSE TROCA A MEDICINA PELAS ARTES PLÁSTICAS

Nascida no bairro de Vila Isabel, Jacqueline Reis mudou-se, ainda na infância, para um dos conjuntos habitacionais mais conhecidos de Três Rios, o BNH da Automeca.  Mais tarde, transferiu-se com os pais, Terezinha Henrique Reis e Homero de Paula Reis, para a Caixa D’Água, onde boa parte da família reside até hoje. Sua vida estudantil começou no Grupo Escolar Condessa do Rio Novo e prosseguiu no tradicional Colégio Entre Rios, onde permaneceu até o segundo ano do Curso Científico. Já decidida a cursar a Faculdade de Medicina, fez o cursinho pré-vestibular na Academia de Juiz de Fora e, aos 15 anos, ingressou na Universidade Federal. Paralelamente à medicina, Kelyne, como sempre foi chamada pela família e amigos, exercitava  seus dotes artísticos pintando e desenhando e, ao se formar, aos 22 anos, foi estudar  Artes Plásticas.

Especializando-se em angiologia, a Dra. Kelyne exerceu a profissão por alguns anos em Três Rios, atendendo em consultório particular e no Hospital de Clínicas Nossa Senhora da Conceição, ficando conhecida pela forma carinhosa e atenciosa com que tratava seus pacientes. “Sempre gostei de ajudar as pessoas”, afirma a artista-doutora.

Kelyne visita a família, em Três Rios, duas vezes por ano, e foi  numa dessas ocasiões que conversou com a reportagem do TR Revista, revelando detalhes de sua trajetória, que com certeza daria roteiro para um bom filme.

TR – Antes de fixar residência nos EUA você conheceu outros países?

KR – Sempre gostei muito de viajar. Na década de 1990, durante as férias fui passear em São Francisco, nos Estados Unidos. Em 1991, viajei para a Europa. Conheci a Bélgica, Holanda e a Alemanha. Um ano depois, voltei à Alemanha, planejando trabalhar e estudar durante um ano. Esse período se prolongou por quase 20 anos...

TR – Você exerceu a medicina na Alemanha?

KR – Sim, morei e trabalhei durante muitos anos na cidade de Hannover, ao norte daquele país. Como lá não havia especialistas em angiologia, tinha uma agenda sempre cheia.

TR – E o contato com as artes plásticas, nesse período? Você continuava pintando?

KR – Nunca deixei a arte de lado. Ainda morava na Alemanha quando uma amiga viu meus quadros e me convidou para expor ao lado de um artista francês.

TR – E a mudança para os EUA, quando aconteceu?

KR – Meu marido, Sven, que é alemão, trabalha numa empresa que presta serviço para petroleiros. Então há cinco nos mudamos para Houston, mas passei algum tempo indo periodicamente à Alemanha, para atender meus pacientes.

TR – Onde expõe seus trabalhos?

KR – No Silver Street Studios, que fica num dos melhores prédios da cidade. Houston, no Texas, é a quarta maior cidade dos Estados Unidos. Tem uma vida artística muito rica, 38 museus, inúmeras galerias de arte, construções  antigas muito bem conservadas, aliás eu moro num prédio de 1890.

TR – Qual a reação das pessoas quando sabem que, além de artista plástica, você é médica?

KR – As pessoas reagem com respeito e admiração, acho até engraçado, porque muda a forma como me tratam, aliás, esta é uma reação muito comum, em todo o mundo as pessoas endeusam os médicos,  não é?

TR –   E  quando sabem que você é brasileira, qual a reação das pessoas?

KR – Há muitos brasileiros em Houston, mas não nos encontramos muito, porque é um modo de vida diferente. Na Alemanha, eu não andava de carro, aliás,   eu nem tinha carro, andava a pé, de bicicleta, de metrô. Em Houston, não. Todo mundo anda de automóvel, ônibus é coisa que quase ninguém usa. Então, nas raras vezes em que nos encontramos,   falamos  sobre carnaval, futebol, sempre com opiniões positivas.  Na Alemanha também falamos muito sobre o Brasil, já editei dois livros sobre as exposições e estou a caminho do terceiro, em inglês e alemão. Nas festas esses livros são sempre tema de conversa.

TR – Você consegue viver exclusivamente de sua arte?

KR – Sim, apesar da minha arte ser considerada “diferente”, em seis meses morando nos EUA fiz minha primeira exposição. Aprendi grafite com Gonzo 247, um artista super famoso, com murais espalhados por toda a cidade de Houston. Em agosto de 2013 participei da pintura do  mural Greens Strett Graffite, com mais 3 artistas, para atrair visitantes para a cidade. Faço também projetos de arte “usável” (capas para celular, luminárias, tecidos) em parceria  com a atriz e artista plástica brasileira Tânia Botelho, que conheci nos Estados Unidos.  

TR – Quando  marcamos esta entrevista você disse que Três Rios não é a mesma de tempos atrás. O que achou da cidade, quando chegou? O que mais a impressionou?

 KR – Fiquei  espantada com o crescimento sem estrutura, senti falta de obras como abertura de ruas para expansão da rede de esgotos, por exemplo. Há alguns pontos dos bairros sem calçamento, um certo ar de abandono,  senti a cidade muito dividida, é como se fossem duas Três Rios, uma antes e outra depois da linha do trem. Vejo, também, muitas pessoas diferentes nas ruas, mas isso é um fator positivo. Me impressionei também, nesta última visita, com a unanimidade dos meios de comunicação. Não há críticas aos administradores públicos, é como se na cidade tudo funcionasse perfeitamente.  

TR – Além da família, do que mais sente falta, morando há tantos anos no exterior?

KR – Sinto falta somente da família e dos meus pacientes. Não me apego a coisas ou a lugares. Para mim não existe o “voltar” para lugar nenhum, porque nenhum  lugar é sempre o mesmo.