TRIRRIENSES PELO MUNDO/DA VÁRZEA DO OTORINO AO PARAÍSO GREGO | TR Revista

TRIRRIENSES PELO MUNDO/DA VÁRZEA DO OTORINO AO PARAÍSO GREGO



Jefferson Luiz, trirriense, 38 anos comemorados dia 14 de dezembro,  sempre quis em ser artista. A trajetória para realizar este sonho começou aos 9 anos, participando de grupos de teatro. Na adolescência, descobriu o futebol, pensou em se tornar um craque dos  gramados mas a falta de paciência para esperar o restabelecimento de uma contusão o fez voltar a investir nos antigos projetos. Tabalhou como modelo e manequim, foi promotor de eventos e  fundou o  Nova Era, um dos grupos de pagode mais famosos da região, até hoje em atividade.
Criado na Várzea do Otorino, onde reside quando está no Brasil,  neto da Dona Mirtes, filho do Herivelto e da Sandra, uma das fundadoras do Bom das Bocas, falecida precocemente em julho de 2013, Jefinho, como é conhecido desde a infância, estudou no Colégio Ruy Barbosa, e em 2003 viajou pela primeira vez para o exterior. Seu destino, a Grécia, onde foi professor de capoeira, trabalhou  como modelo e manequim e onde atualmente passa quatro meses por ano, como performer e coordenador de shows do Paradise Beach Bar Guapaloca, na ilha de Mikonos.
Quando está no Brasil, Jefferson dá aulas de tumbão, participa das atividades do Bom das Bocas, sua escola do coração, e faz apresentações com seu grupo, a Banda Du Guapa, em casas noturnas de Três Rios e região. Falando ao TR Revista, relembrou a infância, declarou seu amor por Três Rios e pela Grécia, que considera sua segunda pátria, e admitiu ter sido vítima de racismo.

TR  - A Grécia foi o primeiro país onde exerceu sua atividade, ou você trabalhou em outro países antes?
JL - A Grécia foi o primeiro  país da Europa onde trabalhei, mas também já fiz shows na Turquia, na Albania e na Itália.
TR - Quanto tempo você passa naquele país atualmente, trabalhando em qual cidade e exercendo qual atividade?
JL - Trabalho na Grécia durante quatro mees, no verão europeu. Sou o responsável pelos shows do Guapaloca Paradise Beach, na ilha de Mikonos. Com dança e animação, garanto a alegria dos veranistas na ilha.
TR - Convive com muitos brasileiros no exterior?
JL  - Confesso que hoje em dia o convívio com braileiros é menor, mas conheço pessoas de várias partes do Brasil e os  que residem no exterior. Em Atenas convivia diariamente com muitos conterrâneos.
TR - E qual é, na sua opinião, a imagem que os estrangeiros que conhece fazem do nosso país?
JL - Todos são fascinados pelo Brasil, pela beleza natural, pelos brasileiros, pela originalidade, nossa beleza...nosso swing, e principalmente pelo grande coração dos brasileiros.
TR - Qual a reação dos gregos quando sabem que você é brasileiro?
JL -  Em geral eles vibram, e eu, é claro, me encho de orgulho!
TR - Existem semelhanças entre o Brasil e a Grécia?
JL - Sim, existem. O clima, por exemplo, é muito parecido, e isto faz com que o povo grego seja mais aberto e caloroso.
TR -  Você escolheu viver na Grécia ou foi por acaso que se estabeleceu naquele país?
JL - Então...Foi um convite que recebi para trabalhar naquele lindo país durante o carnaval, mas em pouco tempo percebi que meu lugar era lá, Senti que poderia crescer  mais e mais, divulgando nossa cultura na Grécia. E assim aconteceu. Cresci profissionalmente e hoje sou reconhecido por tudo que fiz por nossa cultura em terras gregas.
TR  - Atualmente,  quando tempo passa no Brasil?
JL - Fico aqui durante oito meses.
TR - Já pensou em fixar residência no exterior definitivamente?
JL - Várias vezes pensei nisso, mas a vida nos prega peças, e com isso ainda não pude concretizar esse projeto.
TR - O que o levou a se decidir pelo trabalho fora do Brasil?
JL - Acho que a falta de oportunidades aqui. Mesmo sendo músico e exercendo várias atividades artísticas em minha terra, senti que estava difícil seguir minha vocação. Aí surgiu uma oportunidade, eu a agarrei e não me arrependo.
TR - Quer dizer que você está concretizando um sonho antigo, sendo artista?
JL-  Sempre sonhei em ser famoso de alguma forma. Fiz teatro dos 9 aos 12 anos. Depois comecei no futebol, achei que tinha descoberto minha real vocação, mas aos 18 anos sofri uma contusão e não tive paciência para esperar a hora de voltar a jogar. Aí entrei de cabeça no mundo artístico, fiz figurações na tevê, desfiles, cantei no Nova Era. Então Deus me estendeu a mão, me mostrou meu verdadeiro caminho e eu sou feliz por isso.
TR - Já marcou a próxima viagem?
JL-  Viajo para a  Grécia sempre em maio, portanto, estou curtindo o momento e aguardando a hora de embarcar. Mas existe a possibilidade de duas viagens rápidas para a Austrália e a Itália, onde deverei participar de seminários de tumbão, dança que eu ensino.
TR -  Quais os outros países que você conhece?
JL - Além da Grécia, França, Portugal, Itália, Turquia e Espanha.
TR - E quanto ao racismo? Já se sentiu discriminado em alguma ocasião?
JL - Em várias. Aqui no Brasil, senti esse drama na pele durante toda a infância. No Projac aconteceu uma vez...Na Grécia também. A vida é mais difícil para quem tem um tom de pele mais escuro...Cabelo crespo...E além disso um sorriso mais claro, força para vencer, honestidade e mais amor no coração. Muita gente não gosta dessas misturas....Por issso, sofri discriminação e ainda sofro. É um problema eterno, temos que aprender a conviver com isso.
TR - E quando aconteceram estas situações envolvendo racismo?
JL - Começou na escola....Eu sou negro e estudava em escola particular, naquele tempo isso não era muito comum, por isso as chances de ser discriminado eram maiores. Naquela época  já existia o programa de tevê chamado Os Trapalhões, e o Antonio Carlos recebia inúmeros apelidos perjorativos do Renato Aragão. As crianças repetiam o comportamento do humorista na escola, repetindo "urubu", "mussum",  "frango de macumba"...Para a Tv Globo era normal exibir esse programa em horário nobre, aos domingos. todo mundo achava graça. O Brasil ria...Lamentável!
TR - E como você reagia diante dessas situações?
JL - Eu me impunha...Sempre fui grande...Rssssss....Mas tinha vergonha. Era criança e não sabia como me defender de outra criança, que era manipulada pelo sistema.
TR - Se isso acontecesse hoje, o que faria?
JL - Hoje eu não permito mais esse tipo de coisa, nem comigo nem com meus amigos.  Corrijo na hora, e mostro que bem lá atrás meus antepassados sofreram bastante, e hoje eu não quero que minha filha ou qualquer outra criança sofra. .
TR -  É a favor das cotas para negros nas universidades, serviço público, na televisão etc?
JL - Claro que não. Acho isto errado. As cotas tinham que ser para todos, isso é uma  piada, não dá pra tapar o sol com a peneira. É uma  forma clara de racismo e falta de programação. Nosso país precisa começar a pensar mais nas famílias para que as cotas não existam.
TR -  Nos países que visitou, sentiu que a vida dos negros é melhor ou pior do que no Brasil?
JL - A diferença de um país para o outro não altera muita coisa. Se você for um artista, ou um jogador de futebol famoso, por exemplo, pode viver em Marte, que nada te afeta. Tudo depende da posição social. Mas lá fora a vida é extremamente difícil para os negros vindos de qualquer parte da África.
TR -  Acha que o fato do racismo ser classificado como crime pode ajudar a acabar com o preconceito no Brasil?
JL - Acho que não, porque na minha opinião o preconceito nunca vai acabar. Infelizmente, é a lei da vida. Como falei antes, temos que nos preparar para lidar com tudo isso. Ninguém nasce racista, mas existe uma força chamada "sistema", que não deixa o racismo acabar.
TR -  E no exterior, as atitudes racistas acontecem com maior ou menor frequência do que no Brasil?
JL - Varia... Às vezes acho que o Brasil esquece que é um país de maioria negra, porque deixa de lado suas verdadeiras raízes. Aqui a discriminação é bem maior!
TR -  Quais as atividades de que participa quando está no Brasil?
JL - Dou aulas de tumbão, dança totalmente aeróbica, e tenho tentado me firmar no mercado com minha banda. Digo tentando, porque parece que ninguém quer te dar a mão quando você precisa de uma força, entende? Tipo você ajuda, você coopera, você entende, ajuda de novo....Mas nem todo mundo é igual, né?  Cansa um pouco...Mas amo cantar meu samba, quando deixam! Amo Três Rios!
TR -  O que mais gosta na Grécia?
JL - A Grécia... Uma terra mágica, de cultura rica, histórias e histórias. O clima quente, as águas do Mediterrâneo...Meu segundo país! Tenho amigos de verdade lá.
TR -  E do que mais sente falta quando está fora do Brasil, além da família e amigos?
JL - Sinto falta da minha terra, sinto falta da minha namorada, de andar descalço na minha rua, de jogar minha pelada...Trocar ideias com a minha galera...Sinto falta da minha infância...
TR - Quais são seus planos para 2016?
JL - Vou tentar continuar a ser feliz, Viver um dia após o outro, praticando os ensinamentos de mamãe Sandra, fazendo o bem.
TR - E qual o conselho que daria a alguém que deseja trabalhar fora do Brasil?
JL - Meu conselho é para que nunca olhe para trás. Que tenha força, foco e fé. É importante  ter disciplina e respeitar a outra cultura, não mudar o caráter  ser transparente e firme.E mais: a HUMILDADE é qualidade essencial.